Acabo de chegar de uma viagem fantástica. Nos últimos cinco dias eu vi chover, fazer sol, vi montanhas, lagos, cachoeiras, vi tudo branco, marrom, cinza, azul. Eu ouvi uma língua indecifrável, andei em alto mar, comi peixes deliciosos, fiquei só de biquini aos 5 graus de temperatura. Eu estava na Islândia.

Reykjavik: seja bem-vindo!
Há uns seis meses atrás, o Nando me ligou e disse: comprei passagens pra irmos pra Iceland ver a Aurora Boreal! Nem acreditei. Até então, pra mim a Aurora Boreal era só possível de se ver no Fanstástico. De lá pra cá, essa tornou-se a viagem mais esperada por nós e pelo grupo de amigos que temos aqui em Glasgow. The Craziest Trip Ever, foi o nome que demos. E de fato, ela foi.
Ver a Aurora Boreal pelo menos uma vez na vida é um privilégio para poucos. Um fenômeno da natureza visível em poucas regiões do mundo de repente me convidou para contemplá-lo. Além de comprar as passagens para Reykjavik, o Nando pagou também um tour ao norte da Islândia para vermos a Aurora Boreal, ou as Northern Lights. Só que não vimos.
SIM!
Fomos até a Islândia para ver a Aurora Boreal e não vimos. Nem sequer uma nesga de luz verde, roxa ou de qualquer outra cor. Quase todas as noites foram nubladas, cinzas e fechadas. Egoístas ao último! Eu disse quase.

Advanced Gramado!
Foi a primeira vez que conheci um país escandinavo. Pude ter uma provinha do que será minha vida na Dianamarca a partir de setembro, e confesso que gostei. Embora as pessoas sejam fechadas feito uma rocha, a população é extremamente civilizada, as cidades são limpas, seguras, tranquilas. E o país é capaz de revelar o que ninguém imagina.
A Islândia é um país turístico. Reykjavik é uma cidade relativamente famosa, mas o fato de existir o guichê de apenas 1 companhia aérea no aeroporto internacional – a Icelandair – mostra que a rota ainda é pouco explorada. Eu mesma nunca imaginei ir parar por lá. Fui a convite do Nando, que foi ao convite do Stevo, um colega de mestrado, que tirou a ideia não sei da onde. Grande Stevo!

Preparados para uma grande viagem!

A caminho de Iceland!
Saímos de Glasgow na terça-feira de tarde, num grupo de 15 pessoas. O vôo até Reykjavik é curto. Em menos de duas horas chegamos na capital islandesa, quase à míngua porque a Icelandair cobra até os fones de ouvido. E no caso de mochileiros, economizar é preciso. Nos hospedamos no Hotel Cabin, há uns 15 minutos a pé do centro de Reykjavik. Assim que abrimos a porta do quarto entendemos o nome do hotel. Uma barraca poderia ser maior. Mas ok, o chuveiro tipo cachoeira de metal fazia o resto valer a pena. O café da manhã era bem gostoso, embora uma das funcionárias fosse a grosseria em pessoa. Num dos dias veio até a nossa mesa com um cartaz em punho e berrando pra quem quisesse ouvir que era proibido levar comida do café da manhã como lanche. A nossa amiga indonesiana, que neste momento enrolava um pãozinho de sanduíche no guardanapo quase mudou de cor de vergonha. “Mais grossa do que dedo destroncado”, como diria a minha mãe. Depois de fazer a cena, a mulher virou as costas e deu o último aviso:
- Isso aí vai custar 3 pounds!
Creeedo…
Nos dois primeiros dias passeamos pela cidade. Muito bonitinha! Pequena, com casas coloridas e uma costa incrível com montanhas cobertas por neve ao fundo. A ruas estreitas, a sequência de lojinhas, bistrôs e luzes me fez lembrar Gramado. Eu acho Gramado um porre! Mas Reykjavik é uma Gramado mais interessante, mais viva. Fomos ao Museu Nacional e subimos até o topo da Igreja central. De lá, vimos toda a cidade, que de tão pecorrucha, cabia onde a nossa vista cobria.

Vista do alto da igreja!
Eu estava com o Nando, o que significa: experimentar comidas! Em uma das noites jantamos num restaurantezinho super fofo da Laugavengur. Aquela coisa meia luz, poucas mesas. Eu comi um bagel com salmão defumado e salada. O Nando se lambuzou com um hambúrguer de pão preto e molho de cogumelos. Ai que delíciaaaaaaaaaaaa! Para completar, cerveja islandesa: Viking! Brindamos aos ancestrais daquela terra tão curiosa.
Chuva e nuvens. Tour para a Aurora Boreal cancelado pela primeira vez.

Um wale watching só de golfinhos... Olha que fofo!
Na quinta-feira acordamos bem cedinho. Destino: Wale Watching! Um passeio de barco em alto mar para ver as baleias. Chovia e ventava. Já subi no barco lembrando da vez que peguei o ferry de Montevideo a Buenos Aires e tive que segurar meu estômago por mais de uma hora. Desta vez, sentei lá fora, aspirando o ar gelado, tomando chuva e vendo aquele horizonte sem fim. Quando o primeiro golfinho saltou bem do lado do barco, quase chorei. Ele era enorme, com manchas brancas. Me vi navegando no meio do Oceano Pacífico, sem qualquer ponto de referência à volta, vendo a natureza agir independente. Ficamos três horas em alto mar, com um guia falando no microfone, fazendo a gente imaginar que o barco era um relógio: Now, 12 o’clock. Now, 9h o’clock. E assim, todo mundo ia se remexendo de um lado para o outro do barco, câmeras enlouquecidas em mãos, registrando cada pulo, cada nadadeira. Numa dessas, eu estava voltando das 15 o´clock para às 21 o´clock e me deparo com os meus óculos caídos na beira do barco, quase a ponto de cambalhotar junto aos golfinhos. Ê, Terena… E nada das baleias.

Frio, chuva, mas ainda assim.. maravilhoso!
Quando voltamos para o porto, alguns verdes de tanto enjoar, o Nando desabafou:
- Agora só falta a Blue Lagoon não ser azul.
Eu não me importei de não ver as baleias. Apesar do frio, da chuva, das ondas ameaçadoras de estômago e do descaso das anfitriãs a nossa visita, o passeio foi especial. Estar em alto mar e em outro mar que não o nosso é uma experiência forte, quase budista!
Então, fomos direto para a Blue Lagoon. A lagoa mais azul que já vi na vida. Fiquei de biquini sob 5 graus de temperatura e caí na água! Ok, não sou tão free style. A água é quente, a ponto de liberar vapor o tempo todo. O solo é de sal e o calor vem da terra. Mergulhei num ponto de águas geotermais, com uma vista tão impressionante, que parecia irreal.

Esta foto é da entrada do spa. Aguardem fotos que tiramos com a câmera à prova d´água!
Em torno da Blue Lagoon foi criado um spa de primeira linha, com serviços como massagens, terapias, sauna, tratamentos de beleza, bar, restaurante e, claro, a Blue Lagoon. O dono deve ser milionário e a experiência vale cada centavo de Krone islandês. Viramos uvas-passas lá dentro, boiando naquela água e enchendo a cara do creme feito com sílica que eles oferecem pra você tratar a pele enquanto se delicia na lagoa. Voltei pra casa com o cabelo seco feito uma palha, mas com a pele igual a bumbum de neném.
Chuva e nuvens. Aurora Boreal cancelada pela segunda vez.
Na sexta-feira descemos para o Sul erodamos nada mais, nada menos do que

Pé na estrada!
800 quilômetros em bate-e-volta. Saímos com o objetivo de ver umas cachoeiras, umas casas Vikings, uma geleira e voltar a tempo de tentar ver a Aurora Boreal. “Quem acredita, sempre alcança”.
O dia estava perfeitamente ensolarado e as paisagens que passaram pela nossa frente eu vou guardar pra sempre na memória. Alugamos três carros e saímos às 8h da manhã rumo às rodovidas de Iceland. Nós, um GPS e alguns mapas. Telmo, o guardião do GPS tinha mais sorte que juízo. Na primeira tentativa de chegar numa cachoeira, pegamos a estrada errada e chegamos numa montanha. Descemos do carro e subimos até o topo. Não tenho ideia de quantos metros.. talvez 100? Mais que 100? O Stevo olhou pra cima e desistiu da empreitada. A Linda, uma taiwanesa, parou no meio da trilha e olhava pra todos os lados com uma cara de terror e pânico. Não sabia se subia, se descia e lá pelas tantas se decidiu pela segunda opção. Mas quem subiu, não se arrependeu.

Descemos a montanha, pegamos o carro e finalmente encontramos a cachoeira. Linda! Aberta, visível à distância. Tentamos subir as escadas laterais pra ver mais de perto, mas o banho foi tanto que resolvemos voltar e contemplar só de longe. Seguimos mais alguns quilômetros e encontramos outra. Esta, maior, com um curso de rio à frente e rodeada por areia vulcânica. Meu Deus! Haja cartão de memória!
Aí veio a discussão: e a Aurora Boreal, será que hoje ela aparece? O tempo estava frio e limpo no sul, do jeito que as Northern Lights gostam. Mas ligamos para o hotel e descubrimos que o clima ao Norte não era o mesmo. Tour da Aurora Boreal cancelado pela terceira vez.
Então, vamos rodar mais e ver o Glacier lake! Telmo e seu GPS descotrolado quase nos enlouqueceram. O que era pra estar a 1 quilômetro de distância, de repente estava a 50. Nos revezamos na direção e tive a oportunidade de guiar pelas paisagens mais lindas que já vi. Montanhas, lagos, rios, pontes, campos, cavalos selvagens, gelo, um mini tornado.

Pelo caminho...
- Olha aquilo, uma nuvem de insetos!
Não, era um tornado, pequeno, de baixa intensidade, rodopiando bem em frente aos nossos olhos. Quase tive um ataque do coração!
- Grava, grava!
- Para o carro, para o carro!
E ele foi passando… dançando da esquerda para a direita, até que começou a enfraquecer, se perder no vento e sumir.
- What a f…..
Conforme avançávamos em direção ao Glacier Lake o clima simplesmente foi se transformando. No lugar do sol, da luz amarelada sobre as montanhas e dos rios azuis apareceu uma névoa. A temperatura caiu 8 graus em uma hora e o cenário ficou árido e com poças de neve bem próximas à estrada. Sabe filme de terror? Três carros rodando no meio do nada, próximo ao anoitecer. O Telmo já tinha quase ido parar na forca, quando finalmente chegamos à região do lago gelado. Mas pegamos a estrada errada. Mais uma vez.
- Ok, pra lá também tem um lago, só que menor. Vamos tentar esse mesmo.
Quem sugeriu a ida até o Glacier Lake foi justamente o Telmo, que encontrou um cara lá pelas cachoeiras que garantiu: era o lugar mais bonito de Iceland. Só faltava o Telmo comprovar a tese. Já estávamos exaustos e, obviamente, com medo. Quando o GPS indicou que tínhamos chegado no nosso destino, o dia estava escurecendo. Pra onde se olhava, não se via nada a não ser nada. Nos enfiamos na pequena estrada de pedregulhos e decidimos deixar os carros antes de ter prejuízo com a lataria. Seguimos a pé.
- You cannot believeeeeeeeeeeeeeee!
Stevo botou as mãos na cabeça e começou a correr no alto do morro. Corremos atrás e sem esperar, me deparei com uma foto da National Geografic, só que viva. Fiquei paralisada. Uma montanha de gelo atrás de um lago pingado com pequenos icebergs. A paisagem mais diferente que eu poderia ver com os meus próprios olhos, vindo de onde eu vim, nascendo onde eu nasci.

Glacer!
Impossível descrever cada detalhe desse momento. Foi único, foi alucinante, foi inesquecível. Trezendo flashes por segundo e nenhum deles capaz de registrar o que eu trouxe para Glasgow na minha memória.
Fechei Iceland na minha mala, sem a Aurora Boreal. Mas a verdade é que depois do que vi nessa viagem, tenho certeza de que a Aurora é questão de tempo. Não existe lugar inatingível, não existe o impossível. Se passou no Fantástico, por que não pode passar pela minha vida também?
Pra quem ainda não viu, dá uma olhada na minha galeria de fotos no Facebook.
Abandonei o plugin que eu usava aqui, era cheio de bugs.